Training Ground
Brillante Mendoza: Histórias que nos perturbam
28.06.2025

O realizador premiado Brillante Mendoza participou no FEST 2025 como convidado final das Training Ground Masterclasses da semana. A sessão, intitulada “Behind the Scenes of Ma’ Rosa”, foi dedicada à forma singular como Mendoza conta histórias “urgentes” sobre as Filipinas, o seu país natal.

O conceito  de “the Found School of Thought” é a filosofia que sustenta todo o processo criativo de Mendoza. Nesta abordagem original, o realizador procura captar a realidade. Não quer cenas que pareçam coreografadas ou ensaiadas. Pelo contrário, os seus filmes, de natureza sociológica e com grande foco nas personagens, são naturalistas, crus e tão complexos quanto as próprias situações neles retratadas.

A filosofia “Found” de Mendoza aplica-se a todos os aspetos do seu trabalho. Todos os processos, desde a cinematografia e cenografia à edição, seguem esta lógica, que procura eliminar o glamour que muitos outros estilos cinematográficos usam para embelezar a narrativa e as personagens. A abordagem de Mendoza opõe-se a este glamour: remove a “capa” para que a verdade da narrativa e das personagens esteja em primeiro plano.

As obras de Mendoza destacam-se pelos sons e cores, que procuram aproximar-se dos contextos que retrata. Recordou uma sessão de Perguntas e Respostas, no Festival de Cinema de Locarno, onde uma espectadora lhe disse que a sua primeira longa-metragem, Masahista (2005) — vencedora do Leopardo de Ouro — a tinha transportado para as Filipinas. Acrescentou ainda que Masahista, ao contar histórias do quotidiano, revelou a verdadeira essência do realizador. Mendoza descreveu essas palavras como “um relâmpago que me atingiu” e diz que ainda ecoam na sua memória, mesmo depois de ter realizado mais de 20 filmes desde então.

Vindo de um país que não investe adequadamente na cultura e nas artes, fazer cinema torna-se uma vocação desafiante. Nas Filipinas, “a arte e o cinema não são uma prioridade para o governo”, o que significa que o apoio financeiro estatal não é algo com que Mendoza possa contar. Por isso, aprendeu a manter as suas produções o mais simples possível, com filmagens que duram, normalmente, apenas uma semana.

Mendoza explicou ainda que os seus atores não seguem nenhum guião. Em vez disso, à semelhança da abordagem que Scandar Copti descreveu na sua masterclass no início da semana, cria contextos e dá-lhes apenas algumas falas como ponto de partida. As histórias que escolhe contar nascem de situações que o inquietam, sobretudo em relação a questões sociais que afetam os membros mais desfavorecidos da sociedade filipina. 

Mendoza aponta que os realizadores “têm o poder de dar visibilidade às pessoas”. O seu trabalho procura dar voz a histórias que o “incomodam”, sobretudo ligadas a questões sociais, algo que se reflete na sua vasta filmografia. “Trata-se de contar a história das minorias, porque se não o fizeres, quem o fará?”

No que toca aos prémios, Mendoza mantém uma postura modesta. Nunca foram a sua motivação para fazer cinema. Em vez disso, insiste que as personagens são o verdadeiro cerne do seu trabalho: “Fui o instrumento que transmitiu as suas histórias… são as personagens que merecem a honra.”

- Alexandra Rongione