A longa carreira de Philippe Rousselot na área da cinematografia rendeu-lhe vários prémios, incluindo três Césars, um Óscar e um BAFTA, e o FEST teve o enorme prazer de o receber para a sua Training Ground Masterclass intitulada “The Art of Preparation: Shaping Film”, no dia 27 de junho.
Com base em décadas de experiência, Rousselot reuniu-se com os participantes do FEST para debater a importância da preparação no trabalho de um diretor de fotografia. “Como é que nos preparamos para coisas para as quais nunca estaremos preparados?” Esta pergunta definiu o tom da masterclass, e as reflexões de Rousselot serviram de enquadramento a uma abordagem à preparação que integra o inevitável caos do cinema.
Enquanto as revistas especializadas costumam mostrar o trabalho dos diretores de fotografia como algo “muito elegante e organizado”, Rousselot fez questão de sublinhar que essa não tem sido a sua realidade. Em vez de um sistema perfeitamente organizado que transforma o trabalho do diretor de fotografia e do realizador numa visão cinematográfica coesa, Rousselot resumiu a sua experiência de forma simples: “Tudo o que vejo é caos.”
Rousselot recorreu a uma metáfora marcante para descrever o seu trabalho: “é um pouco como a Bíblia. Começo, e há caos. Depois surge a luz. E como na Bíblia, a luz aparece, mas o caos permanece.” Cada filme é único e exige respostas diferentes ao longo da produção, muitas delas inesperadas.
Ainda assim, existem passos concretos que ajudam a organizar, ainda que parcialmente, este caos. O primeiro, segundo Rousselot, é ler o guião. Mais do que isso, o diretor de fotografia “deve lê-lo as vezes que forem necessárias até o conhecer melhor do que o realizador”, tomando notas e identificando incoerências que possam dificultar a rodagem.
“Procurem no guião elementos que não foram pensados de forma realista”, recomendou Rousselot. As chamadas “booby traps” (armadilhas) no argumento, como cenas ao nascer ou pôr do sol com várias páginas de diálogo, que criam dificuldades desnecessárias na rodagem e nem sempre compensam o esforço, sobretudo se a cena não for essencial para a história.
Outros componentes vitais do processo de preparação são a exploração dos locais da rodagem — compreender exatamente onde a filmagem vai decorrer e como adaptar esses espaços às necessidades da produção — e a definição dos “limites entre o trabalho do diretor de fotografia e os do realizador”. Manter a comunicação com os cenógrafos também pode ajudar a evitar conflitos mais tarde entre as exigências do diretor de fotografia e a visão do designer de produção. E, claro, trabalhar com uma equipa de confiança e com quem seja agradável colaborar facilitará muito o trabalho do diretor de fotografia.
A direção de fotog rafia deve articular-se com os restantes elementos do filme ao serviço da narrativa. As decisões em cada área são guiadas pela coerência com a história. Para criar enquadramentos que cumpram esse objetivo, explicou Rousselot, “é preciso reduzir a imagem ao essencial e eliminar tudo o resto.”
- Alexandra Rongione